Ainda que eu ande no vale da sombra da morte…

A pequena vila de Yanoun, onde estou morando nesses três meses de projeto, é dividida em duas áreas residenciais conectadas por uma estrada asfaltada que tem espaço apenas para um carro. Todo dia de manhã e no fim da tarde nos fazemos uma caminhada de Upper Yanoun, onde fica a casa internacional, até Lower Yanoun. Esse percurso de cerca de 1.5 km é uma forma de demonstrarmos presença protetiva, mostrar para o colonos que nos observam todos os dias do alto dos morros, que continuamos aqui para garantir a segurança dessa comunidade.

Upper Yanoun

Upper Yanoun

Procuramos fazer esse trajeto sempre em duplas e geralmente partimos cedo na manhã antes do sol tornar a temperatura insuportável. No final da tarde tentamos voltar antes de escurecer. Para falar bem a verdade eu consegui me esquivar de fazer as caminhadas matutinas, em troca trabalho dobrado na cozinha.

Morning Walk - chegando em Lower Yanoun

Morning Walk – chegando em Lower Yanoun

Ontem a situação foi um pouco diferente do usual. Ibraheem, meu amigo de de Lower Yanoun, me convidou para jogar futebol com ele e com seus primos depois da colheita das azeitonas. O resto dos internacionais estavam muito cansados, longo dia de colheita, então fui sozinho para a partida. Ghassam, nosso motorista, me deixou na parte baixa da vila em seu caminho de volta à Aqraba.

Esperamos todos voltarem da colheita e jogamos durante horas. Apesar do cansaço de todos, rimos com a bola voando longe e com a inabilidade de alguns dos primos. Além disso a pouca iluminação tornava difícil discernir o que era bola ou canela. O sol se pôs e logo Ibraheem começou a me perguntar se não estava na hora de eu ir embora. Estavam todos preocupados com a minha caminhada de volta.

Naqueles momentos de alegria e diversão, eu havia me esquecido totalmente de todos os problemas e toda a loucura em que eu estou inserido por aqui. Nós éramos só garotos jogando, se divertindo, não éramos internacionais ou palestinos, judeus ou árabes, cristãos ou muçulmanos. Mas essa epifania foi cortada pela realidade, e logo tomei o caminho de volta, me despedindo pela ótima tarde que tivemos.

A noite já chegara e por pelo menos um quilómetro eu caminharia sem nenhuma iluminação. Dos dois lados, terra confiscada pelos colonos. Duas montanhas onde uma série de estruturas haviam sido construídas pela colônia em outpost ilegais. Na minha frente um vale.

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O vale durante o dia, visto de Lower Yanoun

Todas as vezes que eu ler o Salmo 23:4 “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam.”, essa será a imagem que virá na minha mente. O salmista que andou por essas terras estava familiarizado com esses vales. Mas este em especial, se tornava o da sombra da morte para mim. Dos dois lados, opressores que invadiram essa terra e tiraram quase tudo dos moradores dessa vila. Colonos religiosos e violentos que creem ideologicamente que essa terra pertence a eles e que farão de tudo para consegui-la. O medo me consumiu.

Porém, eu lembrei do que havia me trazido aqui. Um refrão de uma música que sempre é cantada pelo Coral veio em minha mente: “O Senhor é a minha Luz, e a minha Salvação”. Apesar de toda essa escuridão, real e concreta, simbólica e silenciosa, há uma luz que brilha, há um caminho a trilhar. A força para esse caminhar vem da fé, da minha comunidade e dos meus amigos que me motivam, vem do Abud e do Ibraheem, vem dos cristãos palestinos da Sabeel, da senhora que teve as oliveiras queimadas em Quariut, da agricultor agredido pelos colonos em Qusra, de Rasheed e Wafa, de Camel e Najiha e de seus filhos. A luz vem do Cristo, que através do amor, da paz e da justiça, se revela nessas pessoas e nessas experiências.

Quando olhei para o alto, vi o céu estrelado. Centenas de milhares de pontos que dificilmente consigo ver em São Paulo. E eis que vi um grande lumiar, a lua brilhava forte naquela noite. Ao olhar para o chão vi que sua luz chegava a fazer sombra. Era o necessário para me sentir seguro. Caminhei na certeza de que não estava sozinho, trazia muitos comigo.

Chegando em Upper Yanoun, as crianças também estavam jogando futebol. E apesar de estar totalmente cansado, me juntei a eles por mais um tempo. E a alegria se renovou, a esperança brotou novamente. E ficou a certeza de que caminhando em caminhos de paz justa, o começo e o fim serão de festa e vida abundante. A criação e a recriação.

Irá chegar.

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5 respostas para Ainda que eu ande no vale da sombra da morte…

  1. Eduardo F disse:

    Um homem na estrada

  2. Izolda disse:

    Alexandre, as leituras das tuas “leituras” são emocionantes que chego a visualiza-las nós
    (eu Izolda e minha mãe a “dona” Rosa) estamos aqui em São Paulo rezando por vc e pedindo sempre proteção para esta Caminhada linda que vc escolheu atravessar em nome de Jesus Cristo tb. Saiba que qdo vc está nos caminhos sempre estamos junto te fazendo companhia . Fique com e em Deus e até o próximo post , bjks Izolda e dona Rosa.

  3. Tia Dê disse:

    É esse Deus que creio, é nessa força e fé que me seguro, é na aliança dos povos e nações, no partir do pão e na diversidade religiosa que busco o meu “crescer” !
    Que esse Deus único, de diversos nomes e linguas, o proteja e o cubra de bençãos!
    Amamos você, Alê
    bjs
    Tia Dê

  4. Ale, querido. Que texto gostoso de ler. É o tipo de relato que prende e surpreende. E por um minuto achei que eu também estava aí, trilhando essa mesma estradinha que você percorre todos os dias. Fiquei emocionado. Um abração

  5. Elizabeth disse:

    “O Senhor é meu refugio e paz, quem temerei?”

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