How long? (EN/PT) – Morning Prayer at Ecumenical Chapel/WCC – EAPPI Annual Meeting

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Capela Ecumênica – Conselho Mundial de Igrejas, Genebra

Em Genebra para o Annual Meeting do EAPPI/Programa de Acompanhamento Ecumênico na Palestina e Israel, tive a oportunidade de compartilhar uma mensagem do púlpito da Capela do Centro Ecumênico, um lugar muito simbólico para o movimento ecumênico mundial.

Compartilho aqui o texto em inglês, seguido da mensagem traduzida.


[EN]

How long?

“Teach me your way, O Lord, that I may walk in your truth;” Psalm 86:11

Everyday EA’s from different nationalities walk from the upper part of the village of Yanoun to the lower part of it. Yanoun is quite a small and vulnerable Palestinian community in the middle of the WB. Surrounded by settlement outposts, the protective presence of EAs there avoids the people of the village to be expelled from their homes again, as once happened.

Walking is one important part of the work there. Everyday. Morning and Afternoon. A Walk to show that we are present, to make ourselves visible and to meet with people along the way.

Walking is very import in our faith tradition. Once, the people walked for 40 years in the desert. Once, Christians were called “those of the way”.

However, after walking for a long time, is common to ask: “Are we getting there?”, “How long it takes?”, or even “Are we going in the right direction?”

Maybe, we can start by understanding what make us walk together.

What unite us is a calling from the word of God to be prophetic, to act for justice and to love and accompany his people, to walk humbly with God, as Prophet Micah says.

This is a walk for justice. The walk of the EAs in Yanoun, Hebron, or any other placement. And God promises to accompany its people in the way, a God who lead us in the path of Liberation. In Palestine, in Latin America, in South Sudan… trough out of time and history.

We walk moved by the need of justice.

We walk moved by the sight of a new world, of thy kingdom of justice.

That is our horizon. As the beautiful mountains of sand that we see in the horizon in our walks in Yanoun.

And as was said by the Argentinian writer Fernando Birri:

“Utopia is on the horizon. I move two steps closer; it moves two steps further away. I walk another ten steps and the horizon runs ten steps further away. As much as I may walk, I will never reach it. So what is the point of utopia? The point is this: to keep walking.”

How long?

Until the occupation ends.

Until all are fed.

Until thy Kingdom come.

Amen

Geneva, 28th of March 2017.


Até quando?

[PT]

“Ensina-me, Senhor, o teu caminho, e andarei na tua verdade;” Salmo 86:11

Todos os dias EAs (Acompanhantes Ecumênicos) de diferentes nacionalidades caminha da parte alta da vila de Yanoun para a parte baixa. Yanoun é uma pequena e vulnerável comunidade palestina no meio da Cisjordânia.  Cercada por assentamentos, a presença protetiva dos EAs neste local evita que a população da vila seja expulsa de suas casas mais uma vez, como já aconteceu no passado.

Caminhar é uma parte importante do trabalho lá. Todos os dias. De manhã e de tarde. Uma caminhada para mostrar que estamos presentes, para ficarmos visíveis e para encontrar com pessoas pelo caminho.

Caminhar é muito importante na nossa tradição de fé. No passado, o povo caminhou por 40 anos no deserto. No passado, cristãos eram chamados “aqueles do caminho”.

Entretanto, depois de caminhar por muito tempo, é comum nos perguntarmos: “Estamos chegando?”, “Quanto tempo falta?”, ou até mesmo “Estamos indo na direção certa?”.

Talvez, nós possamos começar entendendo o que nos faz caminhar juntos.

O que nos une é um chamado da Palavra de Deus, de sermos proféticos, de agirmos pela justiça, amar e acompanhar seu povo, andar humildemente com Deus, como dito pelo Profeta Miqueias.

Essa é uma caminhada pela justiça. A caminhada dos EAs em Yanoun, Hebron, ou qualquer outro placement. E Deus promete acompanhar seu povo pelo caminho. Um Deus que nos guia nos caminhos de libertação. Na Palestina, na América Latina, no Sudão do Sul… através do tempo e da história.

Nós caminhamos movidos pela necessidade de justiça.

Nós caminhados movidos pela visão de um novo mundo, de Teu Reino de Justiça.

Esse é o nosso horizonte. Como as belas montanhas de areia que vemos no horizonte em nossas caminhadas em Yanoun.

E como foi dito pelo escritor argentino, Fernando Birri:

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Por quanto tempo?

Até que a ocupação acabe.

Até que todos sejam alimentados.

Até que venha o Teu Reino.

Amém.

Genebra, 28 de março de 2017.

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Prédica: Utopia

Prédica realizada no dia 13 de Fevereiro de 2016, no Memorial da Resistência de São Paulo

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Textos Bíblicos:

Deuteronômio 26.5-9, Hebreus 11.32-12.2 e o Evangelho segundo S. Lucas 4:1-13

“Neste caso, caro Rafael”, disse eu, “Peço-vos com insistência que nos conteis muito mais coisas sobre essa ilha. Não procureis ser breve- há tempo de sobra para uma minuciosa descrição de tudo o que diz respeito à sua terra, seus rios e cidades, seu povo, costumes, instituições e leis – tudo aquilo que, em suma, pensais que gostaríamos de saber-, ou seja, tudo que ainda desconhecemos”

Há exatos 500 anos, em 1516, o Chanceler do Reino de Henrique IIX, e mais tarde Santo, Thomas More, publicava um livro com um título que trazia um neologismo, uma palavra nova: Utopia. Na estória, o Jovem Rafael Hitlodeu, homem de muitas viagens, conta ao narrador do livro as histórias de uma república “perfeita”, uma Ilha que havia visitado e que o havia fascinado, a Ilha de Utopia.

A ideia de uma sociedade perfeita, o sonho da igualdade total e da fraternidade humana, motivou ao longo de toda a história mulheres e homens na luta contra a opressão e à desigualdade. Onde quer que houvesse uma comunidade humana, um ajuntamento de pessoas, tenho certeza que ali haveria um pensador, um poeta, um artista, um ativista, que sonhava com uma vida mais fraterna.

Ao olharmos para os textos bíblicos percebemos que a inspiração de tais visões não vem de rebeldias injustificadas ou arcadismos desconectados da realidade, é a mais pura inspiração divina. Talvez, eu acho seja a memoria coletiva desta humanidade, do tempo em que ainda estava no Jardim do Éden, e ali cultivava e colhia, cuidava e compartilhava, sem a desigualdade que hoje envergonha os olhos.

O povo hebreu, de forma especial, sempre caminhou com um Deus que mantinha viva esta perspectiva utópica. Como vemos no texto de Deuteronômio, era a força para passar pela libertação do cativeiro egípcio, para caminhar pelo deserto por 40 anos, e mais tarde aguentar o exílio babilônico, sempre projetando em seu imaginário coletivo um lugar, uma terra que mana leite e mel.

Mas a vida dos sonhadores não é fácil. E este lugar em que nós estamos hoje nos lembra disso. As garras dos reinos deste mundo são impiedosas contra aquelas e aqueles que ousam pensar em outro mundo. Marcam na pele aqueles que não se conformam com as injustiças desta terra, ao lado dos mártires inocentes mortos pelo Faraó, dos pequenos mortos por Herodes, estão os nomes de Heleny, de Herzog, de Celso e Fernando, de Anivaldo, Tito, Honestino. Mas também de Verônica, Claudia, Amarildo, as vítimas dos sistemas de morte, aqueles que criam “palácios, barracos”.

Mas os textos bíblicos, entretanto, nos mostram que é a ação destas pessoas que move a história. Deus se atentou ao trabalho e a miséria do povo hebreu, foi a fé que permitiu a vitória de reinos, a prática da justiça, o alcance das promessa.  Esta é a nuvem de testemunha que envolve o povo de fé, os santos e santas que hoje sussurram aos nossos ouvidos palavras de encorajamento e inspiram nossas utopias através do seu testemunho.

Aquele que foi chamado pelo Pai para anunciar a chegada do Reino dos céus sabia deste desafio, e partiu para um tempo de preparação no deserto. Ali foi tentando, porque o poder de lidar com sonhos e utopias é perigoso, e requer responsabilidade. Jesus trazia em si a personificação da esperança de um povo, mas um povo que também desejava um Rei guerreiro, um libertador armado. A proposta da tentação para Jesus era clara, tu podes ser o rei, mas de um reino deste mundo, um rei de grande poder e de riquezas.

Mas o Cristo deixa claro que esta não é a sua proposta. A o Reino que ele anuncia é a utopia definitiva. Eis o desafio de ontem e de hoje, como seguir a proposta radical deste Reino, sem negocia-lo com as tentações de cada dia

Como nos relembra Thomas more há meio milênio: “E grande parte de Seus ensinamentos (falando de Jesus) está mais em desacordo com as convenções do mundo de hoje do que qualquer coisa que eu tenha sugerido, a menos que se levem em conta as doutrinas modificadas pelos pregadores hábeis e astutos – os quais, sem dúvida, resolveram seguir os mesmos conselhos que há pouco me aconselhastes! – “Jamais conseguiremos harmonizar o comportamento humano com a ética cristã”, parecem ter concluído esses sábios, “e então o melhor a fazer é adaptar a ética cristã ao comportamento humano”, como se aquela fosse uma vara de medir feita de chumbo.”

Enquanto somos desafiados a cooperar no Reino hoje, aguardando e lutando pela eterna páscoa que há de vir, quando passamos pelos desertos da tentação, quando estamos sob a garra dos inimigos, não devemos nos esquecer e nem negociar o Reino de Deus.

Eu olho para a nossa igreja hoje e ouso sonhar. Sonho como aquele povo que sonhava com leite e mel quando tudo que via era deserto e tempestades de areia.

Sonho com o dia em que nossos lideres pararão de negociar os valores do Reino de Deus. Sonho com o dia em que teremos um colégio episcopal majoritariamente feminino. Sonho com o dia em que crianças participarão dos sacramentos e das celebrações sem qualquer barreira. Sonho com o dia em que toda forma de amor será reconhecida como sagrada. Sonho com o dia em que travestis e transexuais poderão passar pelas portas de nossas comunidades sem medo de não serem aceitas. Sonho com o dia em que o racismo será apenas uma lembrança do passado, mas nunca esquecida para que nunca volte a acontecer. Sonho com essa comunidade onde todas e todos são bem vindos.

A palavra utopia significa, o não “u”, lugar “topos”. Não-lugar. Com certeza este sonho que compartilhei com vocês ainda é um não lugar. Mas o Reino de Deus também ainda não é. Como disse certa vez Galeano, citando Fernando Birri “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

 

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Resposta às declarações do Dep. Áureo ao Expositor Cristão

O deputado Áureo Ribeiro faz um alerta. “Não se trata de golpe, haja vista ter previsão em nossa Carta Magna. No sistema parlamentarista temos a dissolução do Gabinete de Governo. No presidencialismo, adotado no Brasil, temos o Impeachment”. Disse.

Eis o excerto retirado da edição de Dezembro do Expositor Cristão, veículo de informação da Igreja Metodista no Brasil. O Deputado Federal Áureo (Solidariedade) é metodista de Caxias (RJ) e foi eleito com amplo apoio da igreja na 1ªRE, o que por si só já contraria os pronunciamentos e orientações práticas dados pelo Colégio Episcopal em 2010 e 2014. Mas nem adianta gastar tempo com isso mais, é pizza antiga, já que a foto de um bispo metodista declarando apoio ao então candidato era material de campanha do mesmo.

Voltemos ao excerto. É importante aclarar o que foi dito pelo deputado, porque mentira e desinformações se combatem com a verdade. De fato, vivemos num país em que o modelo adotado pela nossa constituição foi o presidencialismo (de forma definitiva após o Plebiscito de 1993 – Art. 2º da ADCT). Entretanto, comparar o Impeachment com a dissolução do Gabinete de Governo, do regime parlamentarista, é uma má-fé intelectual enorme.

O Impeachment, no Brasil, é regulamentado pela Lei 1.079de 1950, recepcionada pela nossa Constituição em 1988. O Impeachment, ou impedimento, é a condenação por Crimes de Responsabilidade. Ou seja, é uma condenação por um ilícito cometido pela Presidenta, Ministros de Estado, Ministros do STF ou pelo Procurador-Geral da República, cujos crimes estão especificados ao longo da mesma Lei. Se não há crime de responsabilidade, não há justificativa para o impeachment.

Já o parlamentarismo funciona de forma totalmente diferente. Nenhum eleitor elege diretamente aquele que será o chefe de governo, o(a) primeiro(a)-ministro(a). É uma eleição indireta, dentro do próprio parlamento, em que a maior força partidária ou coalizão elege entre si este chefe. Em quadros políticos fragmentados, podemos ter como exemplo a Espanha neste momento, Gabinetes, ou seja, primeiro-ministro e seus ministros podem ser formados através de acordos frágeis sem longa duração, o que leva à chamada dissolução por falta de apoio do próprio parlamento a este governo que ele mesmo montou. Ou seja, a justificativa para a dissolução de gabinete é política e não a condenação por qualquer ilícito.

E é exatamente esta confusão que o Deputado Áureo, seus amigos Bolsonaro, Cunha e outros tentam fazer na cabeça do povo brasileiro. A nossa jovem democracia enfrenta seus momentos mais difíceis, testes complicados depois de tão pouco tempo de existência, apenas 27 anos desde a promulgação da nossa Constituição. Derrubar uma Presidenta eleita democraticamente e legalmente pelo voto de mais de 54 milhões de eleitores não é como dissolver um gabinete, por falta de apoio no parlamento ou nas ruas. A democracia funciona assim. O presidencialismo tem a suas regras, e até hoje não foi comprovado o envolvimento da Presidenta Dilma Rousseff em atos que caracterizem crime de responsabilidade. Desta forma, Impeachment por interesse político é golpe sim, pois atenta contra a legalidade constitucional e mostra um oportunismo político claro, daqueles só querem agradar a massa em tempos de intensa crise de representação política.

Como tenho plena noção da importância dos princípios do devido processo legal, do princípio da inocência e do contraditório. Vou esperar as investigações avançarem para fazer qualquer juízo moral sobre as buscas e apreensões realizadas pela Polícia Federal na casa do deputado Áureo.

No mais, só reafirmo #NãoVaiTerGolpe e #ForaCunha !

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Direita, volver!

Uma das maiores conquistas do modelo eclesial metodista brasileiro é a democracia existente pelo sistema conciliar. Esta escolha de modelo de governança da igreja distribui o peso das decisões não só na mão da hierarquia clériga, bispos e bispa, mas também nos Concílios (Geral, Regional, Distrital e Local). Este sistema politiza o debate da gestão da igreja, seus rumos e seus planos. Politiza pela própria natureza do sistema. Os concílios, paritários entre clérigos e leigos, são espaços naturais de articulação, de formação, fusão e acordo entre grupos com pensamentos, projetos e crenças eclesiais e teológicas distintas, que no amor à igreja e à missão encontram espaço para discussão e construção do consenso.

Aos que me conhecem e sabem onde me localizo neste extenso espectro ideológico que é a igreja hoje, sabem o preço que se paga por ter opiniões e discussões públicas acerca de temas políticos, polêmicos e difíceis. Mas sabem também, a paixão que nutro por esta comunidade de pessoas que se dispõe, em meio a tantas diferenças, sonhar e caminhar junto.

Eis que existe um claro inimigo a este processo democrático e plural. A hegemonia.

Fazendo uso de um documento público, afinal, somos uma associação, figura de direito privado nacional, e como membro desta associação tenho direito ao acesso dos documentos por ela produzido, gostaria de traçar uma crítica ao modo como esta associação tem sido gerida nos últimos tempos.

Eis as linhas encontradas no caderno do Concílio Regional da Igreja Metodista na 5ª Região, assinado pelo bispo que essa região preside:

“Como todos sabem, a FATEO é a nossa Faculdade de Teologia, situada em São Bernardo do Campo, criada com o propósito prioritário de formar pastores e pastoras para nossas Igrejas locais em todo o Brasil. Historicamente ela também enfrenta mudanças em sua teologia, sendo que em alguns momentos se torna protagonista de algum movimento teológico e em outros se torna antagonista de outros movimentos. No entanto sempre procurou ser fiel às orientações doutrinarias e teológicas da Igreja por meio do Colégio Episcopal, que é o órgão responsável por ela. Ela já transitou por uma linha teológica mais conservadora, outro momento por uma teologia mais liberal, progressista, academicista, já focou bastante e ainda sustenta alguns eixos da Teologia da Libertação e latino-americana. Como alguns aspectos desta teologia se inspiraram num socialismo ideológico e partidário, vem perdendo forças devido à falência e fracasso das ideologias de esquerda, que cada dia se mostram autoritárias e tão corruptas quanto às de direita. Só não se firmou ainda em um eixo mais evangelical e carismático, mas já houve algumas experiências de alguns no espaço da FATEO. O fato que quero destacar é que a Igreja precisa hoje tanto de teólogos/as consagrados/as e frutíferos/as como de pastores/as e missionários/as consagrados/as e frutíferos/as para nossas Igrejas locais. Nossa FATEO tem procurado equilibrar bem estas duas realidades para servir a Igreja Metodista em especial. Não sem ajustes necessários na caminhada, bem como até substituições de quadros de professores. Não precisamos de vocacionados academicamente perfeitos, com alto nível de aprovação, mas sim um coração pastoral, missionário e discipulador.”

A autonomia universitária é um princípio tão importante da educação que foi até mesmo positivado em nossa Constituição Federal no seu Art. 207. Mas parece que a democracia e o livre pensamento acadêmico não agradam a todos. Não bastasse a arbitrariedade e os abusos cometidos pelo Colégio Episcopal nas recentes demissões ocorridas na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista (São Bernardo), agora temos essa bela explicação do que se busca para o futuro desta instituição.

Limito-me à crítica do último trecho retirado do Relatório Episcopal. Apesar de muitas considerações poderem ser feitas à pobre análise de conjuntura que busca atacar com má fé intelectual a Teologia da Libertação, mostrando desconhecimento tanto desta como de leitura política. “Não precisamos de vocacionados academicamente perfeitos.”, é a frase trazida. Ora, que se fechem as faculdades e universidades. Não há nada para aprender nelas mesmo.

O discurso de oposição à educação é, antes de tudo, anti-metodista. O movimento que se fortaleceu na lógica de abre-se uma igreja junto como uma escola, para que o povo possa se libertar social e espiritualmente, vai cada dia mais perdendo sua identidade. Mas a mensagem é tão clara quanto a exposição episcopal acima.

Tem-se medo da educação. Tem-se medo da divergência. Tem-se medo da contestação. Tem-se medo das minorias.

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Afinal, democracia não combina com hegemonia. Direita, volver.

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Metodismo Romani

No junho passado tive a oportunidade de visitar um amigo de longa data. Bence Vigh é pastor metodista na Hungria. Bence e eu nos conhecemos em 2010, na Coreia do Sul, em um encontro mundial da juventude metodista. Naquela época, Bence estava indo para o seminário e eu era apenas um estudante secundário. Mantivemos algum contato durante este tempo, pelo nosso interesse comum em questões ligadas à igreja metodista, liturgia e música. Quando descobri que teria a oportunidade de visitar a Hungria esse ano, logo entrei em contato com ele, e avisei meus companheiros de viagem que me ausentaria por uns dias no nosso trajeto.

Eu e Bence em Kürtöspuszta

Eu e Bence em Kürtöspuszta

Eu pensava que Bence morava em Budapeste. Afinal, para alguém que sabe muito pouco sobre a história da Hungria, Budapeste me parecia ser a única cidade neste país de língua exótica. Muito pelo contrário, Bence morava na vila de Hetes, ao sul do lago Balaton, numa região mais próxima a fronteira com a Hungria e a Eslovênia. Peguei um trem da capital, sem falar uma palavra de húngaro, assim como o sistema de som do trem não falava nada em inglês, e me locomovi até Dombóvár. Sem ter muita certeza de onde eu estava descendo, sai do trem apenas perguntando para as pessoas “Dombovar? Dombovar?”. Bence me esperava na estação e me levou para conhecer algo totalmente inesperado durante os dias que se seguiram.

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Igreja Metodista em Hetes

A Hungria é um país com a população composta em grande parte pelo povo Roma. Não se trata da capital da Itália, mas do povo que nós chamamos de “ciganos”. A expressão que tem caráter pejorativo, não deve ser utilizada, sendo o nome Roma, ou Romani, o mais correto. Este povo, que tem suas raízes na Índia, vive de forma nômade e não institucionalizada, migrando ao logo dos séculos em direção Oeste. Em determinado momento, este povo abraçou a fé cristã e se fixou em algumas regiões da Hungria e de outros países do leste Europeu. Devido ao seu estilo de vida e cultura, foram marginalizados nas cidades principais e passaram a viver em regiões rurais ou formando comunidades nas periferias das capitais.

E este era o desafio do meu amigo pastor. Bence é pastor de uma comunidade Roma, em Kürtöspuszta. Além de atender outras duas comunidades, Hetes e Kaposvár. (poucos pastores muitas comunidades). Por ser período de férias de verão, a Igreja Metodista na Hungria organiza uma série de acampamentos com as crianças Roma, e logo na chegada fomos nos encontrar com um grupo, que junto de missionários americanos, trabalhava com as crianças. Devo admitir que foi engraçado ver os desafios dos americanos em interagir e tentar “controlar” as crianças que corriam, gritavam e brincavam desesperadamente. A violência e o distanciamento inicial são marcas da cultura Roma, marcada por séculos de exclusão social e marginalização social. Fomos recebidos de forma arredia e com desconfiança, mas com o tempo já estava enturmado e todos queriam ver o “brasileiro” jogar futebol. É a sina que nos persegue onde quer que formos.

Enquanto são marginalizados pela maior parte da comunidade húngara, que vive momentos históricos difíceis com o crescimento da direita e de discursos nacionalistas (que não incluem a população Roma), o testemunho evangélico da presença com os excluídos, é uma marca forte da comunidade metodista húngara.

No dia seguinte, segui com Bence para um experiência um tanto quanto diferente. Um encontro de corais. Seguimos até a vila de Kürtöspuszta. Na pequena vila de pouco mais de 70 pessoas, a igreja metodista possui um Centro Comunitário, projeto financiado pela Igreja Metodista Coreana, que atende quase a totalidade das famílias da vila. Além do culto dominical vespertino, o centro é utilizado para uma série de atividades culturais e educacionais durante a semana. Um dos projetos que Bence trabalha é a aula de música e o coral das crianças Roma.IMG_20140628_122459482_HDR

Um ônibus nos buscou e fomos com mais 20 crianças até a cidade de Marcali, onde participamos de um concurso de corais na Cáritas da cidade. Digo “participamos”, porque fiquei na percussão junto com o coro. Que experiência rica. Além de sermos o único coro infantil, éramos também o único coro Roma. As crianças aguentaram mais de 3 horas de cantos de corais das mais diversas formas, até mesmo canto lírico. Foram muito bem recebidas e cantaram muito bem, inclusive na sua língua Roma e em húngaro, mas era impossível não perceber o olhar de desconfiança e até de medo, que algumas pessoas lançavam para as crianças.

O encontro era ora ecumênico, e organizado pela paróquia católica da cidade. Sendo assim, encerramos o dia com uma celebração no templo da praça principal. Como não poderia faltar, a missa se encerrou com a participação do Coro Roma Metodista. Eis uma imagem que ficará para sempre em minha cabeça. No interior da Hungria, no altar da igreja católica, um grupo metodista de crianças Roma cantava e dançava, quebrando qualquer protocolo, mas arrancando palmas e sorrisos de todos os presentes.

O dia tinha sido longo, cansativo. Bence, sozinho, dava conta daquelas 20 crianças, mas no final do dia tudo deu certo. Mais tarde, conversando sobre o ministério pastoral e os desafios de trabalhar com a população Roma, Bence me confessou, ele nunca planejou aquele trabalho, mas a vivência do Evangelho dá uma alegria que está acima de qualquer recompensa.

Conheci ainda outros trabalhos com Bence, assim como a região que ele mora. Estes dias ficarão marcados em minha memória, e também na minha perspectiva de igreja e de missão. Aquela pequena comunidade metodista, uma minoria dentro do contexto religioso da Hungria, mas que testemunha de forma fiel e firme, junto aos que mais necessitam.

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Um dos mais novos integrantes do coral metodista de Kürtöspuszta

Que Deus nos ilumine com o testemunho dos fiéis.

No link, algumas fotos deste período:

https://plus.google.com/photos/115993526779829421610/albums/6077911147135339713

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A última semana

Eu sou branco. Cristão. Paulista. Estudei em um colégio particular de ponta e hoje faço direito numa ótima Universidade particular em São Paulo.

Escrevo este texto faltando uma semana para o segundo turno das eleições presidenciais que dividiram o país nas últimas semanas. Peço que você, que me conhece, ou não, leia com muita calma este texto que eu terei o prazer que discutir com vocês depois.

Ao olharmos para o nosso país hoje vemos uma realidade clara. O esgotamento do nosso sistema político e a insatisfação popular com ele. Primeira parada. No modo como vemos, temos que saber diferenciar o governo, do sistema político. O governo é aquele que elegemos cada quatro anos, com as pessoas e ideais e ocupam os principais cargos públicos do executivo e do legislativo. O sistema é o conjunto de regras e procedimentos que ditam o exercício do governo e o modo que ele é eleito. Eis a diferenciação essencial.

Eu fui às ruas em junho de 2013. Desde o segundo ato do MPL eu estava lá. Não para reclamar de governo y ou z, mas para reclamar de um modelo que se sustenta no nosso país que está diretamente ligado ao sistema político, mas não diretamente ou necessariamente ao governo eleito. Essa é a mudança que Julho pediu. É insustentável um modelo no qual o transporte público tenha um preço alto, e o lucro das empresas não seja revelado, onde os serviços públicos estejam tão abandonados e a corrupção já tenha sua cadeira cativa. Ah, a corrupção.

Eis o outro assunto primordial nessa discussão eleitoral. Quem é o mais corrupto? Ou ainda, quem consegue mais manchetes dizendo que o outro é mais corrupto? É ingênuo quem pensa que a salvação é eleger super-ético ou caçador de marajás. A corrupção é fator fundamental no sistema político que temos. Com o número descontrolado de partidos, a fragmentação do Congresso e o financiamento privado de campanha, tanto o governo quanto a oposição são obrigados a negociar acordos e cessões para conseguir maioria nas casas e aprovar ou barrar programas e leis. Essas negociações se encontram num terreno muito nebuloso dos limites éticos, financeiros e de influência, e incluem, inclusive, forças externas ao congresso, como empreiteiras, grupos econômicos e lobbys dos mais diversos.

Sendo assim, não existe mudança real, que não passe por uma reforma política.

– Ok¿ Mas a eleição de domingo não é sobre reforma política, é?

– Não. Exatamente isso.

A bandeira da mudança tem sido levantada pelos candidatos do “bloco de oposição”, Aécio e Marina (somados aos nanicos Everaldo e Fidelix). A palavra mudança é positiva, ainda mais neste momento que vivemos, de tanto esgotamento e com a lembrança das manifestações de Junho e da Copa na nossa mente. Entretanto, esse espírito de mudança está sendo apropriado por um projeto que de novo, não tem nada.

A reforma política não faz parte das aspirações políticas de um governo do PSDB. Movidos pelo ímpeto da vontade da mudança, centenas de jovens e outros descontentes, são levados a acreditar que para a mudança acontecer é necessário tirar o Partido dos Trabalhadores do poder, e trazer de volta o governo do PSDB. O ímpeto tão belo, da vontade de construir um país melhor, não pode se esquecer da história. O PSDB não representa essa mudança.

Em 500 anos de história, esse país foi governado pelas elites econômicas, quando a sociedade começa a se abrir na década de 1960, e as reformas de base (essas mudanças tão necessárias no nosso país) são propostas, um golpe militar toma o poder e instaura uma ditadura militar. A recente democracia brasileira, que brota da Constituição de 1988 postula então a igualdade como um ideal a ser perseguido pelo País. A Igualdade não como algo teórico e dado, mas como algo a ser construído. Em 2002 um torneiro mecânico, um operário sindicalista é eleito presidente do Brasil. Pela primeira vez, em 502 anos de história, os trabalhadores conquistam, no voto, o direito de governar o país. E estes 12 anos são históricos, inegavelmente. O Brasil sai do Mapa da Fome, a pobreza extrema é reduzida em 75% e o país marcado pelas maiores desigualdade sociais, passa a ser um país de classe média.

Este é um projeto de mudança. Este é um projeto dos trabalhadores e de um governo que mesmo em um sistema político corrompido, conseguiu gerar a maior transformação social da história do nosso país.

Eu nunca passei fome. Eu nunca precisei de apoio dos programas sociais do governo. Nunca utilizei as cotas para entrar na universidade. Mas não fui eu que escolhi a família em que nasci, nem mereci isso. Nasci branco, paulista. Tive sorte, e sorte é a palavra, pois não há nada de mais aleatório do que isso, de nascer numa família de poder aquisitivo privilegiado, que garantiu minha sobrevivência, meu desenvolvimento e minha formação. Mas como brasileiro, meu destino poderia ter sido outro, e as chances eram muito maiores. Sempre nos esquecemos disto.

É por isso, é por essa mudança, que eu não abro mão de continuar mudando. De continuar mudando com o Governo de Dilma Rousseff. De continuar mudando com o governo que se comprometeu com a Reforma Política, que se comprometeu a trazer a sociedade civil para esse debate, que acolheu o Plebiscito Popular por uma Assembleia Constituinte Exclusiva para Reforma Política.

O projeto politico de Aécio Neves é um passo atrás, é o reforço do status quo, das elites econômicas de volta ao poder no país. É a volta de uma economia que não está a serviço da igualdade, mas do lucro para poucos. É a volta de uma política internacional vinculada aos interesses econômicos e não aos processos de libertação e igualdade.

Faço de meu voto, um voto de solidariedade, por muitos, por todos, não apenas pensando em mim. Voto em Dilma não por ser do melhor partido do mundo, com as pessoas menos corruptas, mas pela certeza de ser o melhor projeto para o país continuar mudando.

Daqui uma semana é Dilma, e esse projeto precisa de você.

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Ps: Em anexo, o relatório de distribuição de renda na população de 2012, da Secretaria de Assuntos Estratégicos, você consegue se achar no gráfico?

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A Tribo do Fogo

para Daniel e Duda

Conta a estória que, numa tribo antiga pra antes do tempo da escrita, quando ainda se viva na mata e a mata não assustava, se guardava um grande segredo. Ninguém sabe ao certo como que esse segredo chegou à tribo. Alguns dizem que brotou da terra num quente dia de verão, outros dizem que desceu do céu numa fria noite de inverno. Mas o que se sabe é que antes de discutir sobre a sua origem, o povo daquela tribo vivia aquele mistério. Havia três senhores, já de certa idade, que, com suas mãos e testas enrugadas, guardavam o mistério.

Todo dia primeiro da semana a tribo acordava de forma diferente. Já de manhã as crianças se levantavam animadas para a grande festa. Os três senhores já estavam na grande clareira da montanha se preparando. Grande quantidade de madeira era recolhida e o terreno era limpo. Com o cair da tarde, todo o povo da aldeia caminhava até a clareira cantando e dançando.

Para o começo da celebração do mistério, o primeiro senhor dava um alto grito que fazia com que todos fizessem silêncio. Depois de alguns instantes, o segundo começava a dar passos firmes, batendo o pé no chão. O terceiro assobiava de forma firme, fazendo com que os pássaros cantassem junto com ele. Só então que os três se aproximavam juntos da pilha de madeira que, no centro da roda, começava a pegar fogo. A fogueira queimava enquanto todo o povo rodava e cantava com cantigas de roda e ciranda. No fim da festa, o fogo era levado para cada uma das casas e servia para alimentar os fornos e aquecer as casas durante toda a semana.

Mas um dia, porque toda estória tem um “mas”, a alegria da aldeia acabou. Uma briga entre famílias fez com que a aldeia se desmembrasse. Cada um dos anciãos migrou com um grupo para longe da clareira. Um grupo foi para o sul, outro para o norte e outro não se sabe se para oeste ou leste. O que se sabe é que, depois de certo tempo, as três novas aldeias passaram por longos períodos de fome e miséria e, um a um, os três anciãos faleceram. A esperança parecia ter morrido. Ninguém mais sabia como fazer o mistério e sem fogo não havia esperança de renascer, não havia esperança de sobreviver.

Acontece que, três crianças, uma de cada aldeia, continuaram a se encontrar escondidas. Desde o tempo dos anciãos, elas brincavam juntas com os animais, corriam na floresta e se banhavam no riacho. Neste dia, elas brincavam para tentar esquecer a fome a miséria, e numa corrida pela mata, encontraram a clareira onde um dia celebraram o mistério. Como em uma brincadeira, elas deram as mãos e começaram a relembrar as canções de roda que costumavam cantar. Inesperadamente, uma pequena chama de fogo começou a queimar no meio da roda. Eles se assustaram, e ao largarem suas mãos, a chama logo se apagou.

Cada um correu para sua aldeia, anunciando a boa nova. A esperança que havia morrido renasceu. Idosos e jovens correram para a clareira, mulheres e homens cantavam e relembravam as canções do fogo. Ao chegarem à clareira, todos fizeram silêncio e com olhares curiosos, se perguntavam o que fazer. As três crianças puxaram um canto antigo, e todos começaram a dançar em roda. Aos poucos, o mistério reapareceu, um fogo forte voltou a arder no meio da clareira. As brigas foram esquecidas e o povo da aldeia voltou a se instalar ao redor da clareira.

O mistério do fogo dispensa o grito do ancião, os pés batidos no chão e o forte assobio. Bastam as mãos dadas. Os cantos da vida. A vontade de viver em comunidade.

 

Alexandre Quintino,

São Paulo, Agosto de 2014

Celebração de passagem da Facilitação Nacional da Rede Ecumênica da Juventude no FEACT – Forum Ecumênico Brasil.

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