A Tribo do Fogo

para Daniel e Duda

Conta a estória que, numa tribo antiga pra antes do tempo da escrita, quando ainda se viva na mata e a mata não assustava, se guardava um grande segredo. Ninguém sabe ao certo como que esse segredo chegou à tribo. Alguns dizem que brotou da terra num quente dia de verão, outros dizem que desceu do céu numa fria noite de inverno. Mas o que se sabe é que antes de discutir sobre a sua origem, o povo daquela tribo vivia aquele mistério. Havia três senhores, já de certa idade, que, com suas mãos e testas enrugadas, guardavam o mistério.

Todo dia primeiro da semana a tribo acordava de forma diferente. Já de manhã as crianças se levantavam animadas para a grande festa. Os três senhores já estavam na grande clareira da montanha se preparando. Grande quantidade de madeira era recolhida e o terreno era limpo. Com o cair da tarde, todo o povo da aldeia caminhava até a clareira cantando e dançando.

Para o começo da celebração do mistério, o primeiro senhor dava um alto grito que fazia com que todos fizessem silêncio. Depois de alguns instantes, o segundo começava a dar passos firmes, batendo o pé no chão. O terceiro assobiava de forma firme, fazendo com que os pássaros cantassem junto com ele. Só então que os três se aproximavam juntos da pilha de madeira que, no centro da roda, começava a pegar fogo. A fogueira queimava enquanto todo o povo rodava e cantava com cantigas de roda e ciranda. No fim da festa, o fogo era levado para cada uma das casas e servia para alimentar os fornos e aquecer as casas durante toda a semana.

Mas um dia, porque toda estória tem um “mas”, a alegria da aldeia acabou. Uma briga entre famílias fez com que a aldeia se desmembrasse. Cada um dos anciãos migrou com um grupo para longe da clareira. Um grupo foi para o sul, outro para o norte e outro não se sabe se para oeste ou leste. O que se sabe é que, depois de certo tempo, as três novas aldeias passaram por longos períodos de fome e miséria e, um a um, os três anciãos faleceram. A esperança parecia ter morrido. Ninguém mais sabia como fazer o mistério e sem fogo não havia esperança de renascer, não havia esperança de sobreviver.

Acontece que, três crianças, uma de cada aldeia, continuaram a se encontrar escondidas. Desde o tempo dos anciãos, elas brincavam juntas com os animais, corriam na floresta e se banhavam no riacho. Neste dia, elas brincavam para tentar esquecer a fome a miséria, e numa corrida pela mata, encontraram a clareira onde um dia celebraram o mistério. Como em uma brincadeira, elas deram as mãos e começaram a relembrar as canções de roda que costumavam cantar. Inesperadamente, uma pequena chama de fogo começou a queimar no meio da roda. Eles se assustaram, e ao largarem suas mãos, a chama logo se apagou.

Cada um correu para sua aldeia, anunciando a boa nova. A esperança que havia morrido renasceu. Idosos e jovens correram para a clareira, mulheres e homens cantavam e relembravam as canções do fogo. Ao chegarem à clareira, todos fizeram silêncio e com olhares curiosos, se perguntavam o que fazer. As três crianças puxaram um canto antigo, e todos começaram a dançar em roda. Aos poucos, o mistério reapareceu, um fogo forte voltou a arder no meio da clareira. As brigas foram esquecidas e o povo da aldeia voltou a se instalar ao redor da clareira.

O mistério do fogo dispensa o grito do ancião, os pés batidos no chão e o forte assobio. Bastam as mãos dadas. Os cantos da vida. A vontade de viver em comunidade.

 

Alexandre Quintino,

São Paulo, Agosto de 2014

Celebração de passagem da Facilitação Nacional da Rede Ecumênica da Juventude no FEACT – Forum Ecumênico Brasil.

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