A última semana

Eu sou branco. Cristão. Paulista. Estudei em um colégio particular de ponta e hoje faço direito numa ótima Universidade particular em São Paulo.

Escrevo este texto faltando uma semana para o segundo turno das eleições presidenciais que dividiram o país nas últimas semanas. Peço que você, que me conhece, ou não, leia com muita calma este texto que eu terei o prazer que discutir com vocês depois.

Ao olharmos para o nosso país hoje vemos uma realidade clara. O esgotamento do nosso sistema político e a insatisfação popular com ele. Primeira parada. No modo como vemos, temos que saber diferenciar o governo, do sistema político. O governo é aquele que elegemos cada quatro anos, com as pessoas e ideais e ocupam os principais cargos públicos do executivo e do legislativo. O sistema é o conjunto de regras e procedimentos que ditam o exercício do governo e o modo que ele é eleito. Eis a diferenciação essencial.

Eu fui às ruas em junho de 2013. Desde o segundo ato do MPL eu estava lá. Não para reclamar de governo y ou z, mas para reclamar de um modelo que se sustenta no nosso país que está diretamente ligado ao sistema político, mas não diretamente ou necessariamente ao governo eleito. Essa é a mudança que Julho pediu. É insustentável um modelo no qual o transporte público tenha um preço alto, e o lucro das empresas não seja revelado, onde os serviços públicos estejam tão abandonados e a corrupção já tenha sua cadeira cativa. Ah, a corrupção.

Eis o outro assunto primordial nessa discussão eleitoral. Quem é o mais corrupto? Ou ainda, quem consegue mais manchetes dizendo que o outro é mais corrupto? É ingênuo quem pensa que a salvação é eleger super-ético ou caçador de marajás. A corrupção é fator fundamental no sistema político que temos. Com o número descontrolado de partidos, a fragmentação do Congresso e o financiamento privado de campanha, tanto o governo quanto a oposição são obrigados a negociar acordos e cessões para conseguir maioria nas casas e aprovar ou barrar programas e leis. Essas negociações se encontram num terreno muito nebuloso dos limites éticos, financeiros e de influência, e incluem, inclusive, forças externas ao congresso, como empreiteiras, grupos econômicos e lobbys dos mais diversos.

Sendo assim, não existe mudança real, que não passe por uma reforma política.

– Ok¿ Mas a eleição de domingo não é sobre reforma política, é?

– Não. Exatamente isso.

A bandeira da mudança tem sido levantada pelos candidatos do “bloco de oposição”, Aécio e Marina (somados aos nanicos Everaldo e Fidelix). A palavra mudança é positiva, ainda mais neste momento que vivemos, de tanto esgotamento e com a lembrança das manifestações de Junho e da Copa na nossa mente. Entretanto, esse espírito de mudança está sendo apropriado por um projeto que de novo, não tem nada.

A reforma política não faz parte das aspirações políticas de um governo do PSDB. Movidos pelo ímpeto da vontade da mudança, centenas de jovens e outros descontentes, são levados a acreditar que para a mudança acontecer é necessário tirar o Partido dos Trabalhadores do poder, e trazer de volta o governo do PSDB. O ímpeto tão belo, da vontade de construir um país melhor, não pode se esquecer da história. O PSDB não representa essa mudança.

Em 500 anos de história, esse país foi governado pelas elites econômicas, quando a sociedade começa a se abrir na década de 1960, e as reformas de base (essas mudanças tão necessárias no nosso país) são propostas, um golpe militar toma o poder e instaura uma ditadura militar. A recente democracia brasileira, que brota da Constituição de 1988 postula então a igualdade como um ideal a ser perseguido pelo País. A Igualdade não como algo teórico e dado, mas como algo a ser construído. Em 2002 um torneiro mecânico, um operário sindicalista é eleito presidente do Brasil. Pela primeira vez, em 502 anos de história, os trabalhadores conquistam, no voto, o direito de governar o país. E estes 12 anos são históricos, inegavelmente. O Brasil sai do Mapa da Fome, a pobreza extrema é reduzida em 75% e o país marcado pelas maiores desigualdade sociais, passa a ser um país de classe média.

Este é um projeto de mudança. Este é um projeto dos trabalhadores e de um governo que mesmo em um sistema político corrompido, conseguiu gerar a maior transformação social da história do nosso país.

Eu nunca passei fome. Eu nunca precisei de apoio dos programas sociais do governo. Nunca utilizei as cotas para entrar na universidade. Mas não fui eu que escolhi a família em que nasci, nem mereci isso. Nasci branco, paulista. Tive sorte, e sorte é a palavra, pois não há nada de mais aleatório do que isso, de nascer numa família de poder aquisitivo privilegiado, que garantiu minha sobrevivência, meu desenvolvimento e minha formação. Mas como brasileiro, meu destino poderia ter sido outro, e as chances eram muito maiores. Sempre nos esquecemos disto.

É por isso, é por essa mudança, que eu não abro mão de continuar mudando. De continuar mudando com o Governo de Dilma Rousseff. De continuar mudando com o governo que se comprometeu com a Reforma Política, que se comprometeu a trazer a sociedade civil para esse debate, que acolheu o Plebiscito Popular por uma Assembleia Constituinte Exclusiva para Reforma Política.

O projeto politico de Aécio Neves é um passo atrás, é o reforço do status quo, das elites econômicas de volta ao poder no país. É a volta de uma economia que não está a serviço da igualdade, mas do lucro para poucos. É a volta de uma política internacional vinculada aos interesses econômicos e não aos processos de libertação e igualdade.

Faço de meu voto, um voto de solidariedade, por muitos, por todos, não apenas pensando em mim. Voto em Dilma não por ser do melhor partido do mundo, com as pessoas menos corruptas, mas pela certeza de ser o melhor projeto para o país continuar mudando.

Daqui uma semana é Dilma, e esse projeto precisa de você.

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Ps: Em anexo, o relatório de distribuição de renda na população de 2012, da Secretaria de Assuntos Estratégicos, você consegue se achar no gráfico?

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Uma resposta para A última semana

  1. Anivaldo Padilha disse:

    Caro Alê.
    Sinto-me totalmente representado nesse seu texto. Nele, você trata dos principais temas que estão em jogo nestas eleições. Eleger Aécio significará a volta da hegemonia de políticas neoliberais deredução de investimentos públicos tanto em programas sociais, que contribuem para superar as desigualdades, quanto em infraestrutura, que contribuem para superar os gargalos da economia e geram milhões de empregos. O que está em jogo são os avanços e aprofundamento da democracia, como o Plano Nacional de Participação Social, e a garantia de direitos do povo trabalhador, como as leis trabalhistas, salário mínimo etc, que o PSDB considera “custosos”. O que está em jogo é o avanço da concepção de Estado induntor do desenvolvimento e o Estado Mínimo que concede ao mercado o poder de ditar os rumos do país.
    Você, como cristão consciente, entende perfeitamente que o que deve nos mover não é a defesa de privilégios, mas a defesa da Justiça e dos direitos “dor órfãos, da viúva, do estranho…” como manifestação do amor ao próximo.

    Quanto à onda moralista da qual os cristãos, especialmente evangélicos, são vítimas, repito aqui o que escrevi há cerca de vinte anos sobre o que aprendi na década de 1960: “o discurso moralista é a máscara com a qual escondemos a nossa hipocrisia e representa também nossa falta de refleão e de noção sobre éstica cristã”.

    Um grande abraço,
    Anivaldo

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