Metodismo Romani

No junho passado tive a oportunidade de visitar um amigo de longa data. Bence Vigh é pastor metodista na Hungria. Bence e eu nos conhecemos em 2010, na Coreia do Sul, em um encontro mundial da juventude metodista. Naquela época, Bence estava indo para o seminário e eu era apenas um estudante secundário. Mantivemos algum contato durante este tempo, pelo nosso interesse comum em questões ligadas à igreja metodista, liturgia e música. Quando descobri que teria a oportunidade de visitar a Hungria esse ano, logo entrei em contato com ele, e avisei meus companheiros de viagem que me ausentaria por uns dias no nosso trajeto.

Eu e Bence em Kürtöspuszta

Eu e Bence em Kürtöspuszta

Eu pensava que Bence morava em Budapeste. Afinal, para alguém que sabe muito pouco sobre a história da Hungria, Budapeste me parecia ser a única cidade neste país de língua exótica. Muito pelo contrário, Bence morava na vila de Hetes, ao sul do lago Balaton, numa região mais próxima a fronteira com a Hungria e a Eslovênia. Peguei um trem da capital, sem falar uma palavra de húngaro, assim como o sistema de som do trem não falava nada em inglês, e me locomovi até Dombóvár. Sem ter muita certeza de onde eu estava descendo, sai do trem apenas perguntando para as pessoas “Dombovar? Dombovar?”. Bence me esperava na estação e me levou para conhecer algo totalmente inesperado durante os dias que se seguiram.

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Igreja Metodista em Hetes

A Hungria é um país com a população composta em grande parte pelo povo Roma. Não se trata da capital da Itália, mas do povo que nós chamamos de “ciganos”. A expressão que tem caráter pejorativo, não deve ser utilizada, sendo o nome Roma, ou Romani, o mais correto. Este povo, que tem suas raízes na Índia, vive de forma nômade e não institucionalizada, migrando ao logo dos séculos em direção Oeste. Em determinado momento, este povo abraçou a fé cristã e se fixou em algumas regiões da Hungria e de outros países do leste Europeu. Devido ao seu estilo de vida e cultura, foram marginalizados nas cidades principais e passaram a viver em regiões rurais ou formando comunidades nas periferias das capitais.

E este era o desafio do meu amigo pastor. Bence é pastor de uma comunidade Roma, em Kürtöspuszta. Além de atender outras duas comunidades, Hetes e Kaposvár. (poucos pastores muitas comunidades). Por ser período de férias de verão, a Igreja Metodista na Hungria organiza uma série de acampamentos com as crianças Roma, e logo na chegada fomos nos encontrar com um grupo, que junto de missionários americanos, trabalhava com as crianças. Devo admitir que foi engraçado ver os desafios dos americanos em interagir e tentar “controlar” as crianças que corriam, gritavam e brincavam desesperadamente. A violência e o distanciamento inicial são marcas da cultura Roma, marcada por séculos de exclusão social e marginalização social. Fomos recebidos de forma arredia e com desconfiança, mas com o tempo já estava enturmado e todos queriam ver o “brasileiro” jogar futebol. É a sina que nos persegue onde quer que formos.

Enquanto são marginalizados pela maior parte da comunidade húngara, que vive momentos históricos difíceis com o crescimento da direita e de discursos nacionalistas (que não incluem a população Roma), o testemunho evangélico da presença com os excluídos, é uma marca forte da comunidade metodista húngara.

No dia seguinte, segui com Bence para um experiência um tanto quanto diferente. Um encontro de corais. Seguimos até a vila de Kürtöspuszta. Na pequena vila de pouco mais de 70 pessoas, a igreja metodista possui um Centro Comunitário, projeto financiado pela Igreja Metodista Coreana, que atende quase a totalidade das famílias da vila. Além do culto dominical vespertino, o centro é utilizado para uma série de atividades culturais e educacionais durante a semana. Um dos projetos que Bence trabalha é a aula de música e o coral das crianças Roma.IMG_20140628_122459482_HDR

Um ônibus nos buscou e fomos com mais 20 crianças até a cidade de Marcali, onde participamos de um concurso de corais na Cáritas da cidade. Digo “participamos”, porque fiquei na percussão junto com o coro. Que experiência rica. Além de sermos o único coro infantil, éramos também o único coro Roma. As crianças aguentaram mais de 3 horas de cantos de corais das mais diversas formas, até mesmo canto lírico. Foram muito bem recebidas e cantaram muito bem, inclusive na sua língua Roma e em húngaro, mas era impossível não perceber o olhar de desconfiança e até de medo, que algumas pessoas lançavam para as crianças.

O encontro era ora ecumênico, e organizado pela paróquia católica da cidade. Sendo assim, encerramos o dia com uma celebração no templo da praça principal. Como não poderia faltar, a missa se encerrou com a participação do Coro Roma Metodista. Eis uma imagem que ficará para sempre em minha cabeça. No interior da Hungria, no altar da igreja católica, um grupo metodista de crianças Roma cantava e dançava, quebrando qualquer protocolo, mas arrancando palmas e sorrisos de todos os presentes.

O dia tinha sido longo, cansativo. Bence, sozinho, dava conta daquelas 20 crianças, mas no final do dia tudo deu certo. Mais tarde, conversando sobre o ministério pastoral e os desafios de trabalhar com a população Roma, Bence me confessou, ele nunca planejou aquele trabalho, mas a vivência do Evangelho dá uma alegria que está acima de qualquer recompensa.

Conheci ainda outros trabalhos com Bence, assim como a região que ele mora. Estes dias ficarão marcados em minha memória, e também na minha perspectiva de igreja e de missão. Aquela pequena comunidade metodista, uma minoria dentro do contexto religioso da Hungria, mas que testemunha de forma fiel e firme, junto aos que mais necessitam.

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Um dos mais novos integrantes do coral metodista de Kürtöspuszta

Que Deus nos ilumine com o testemunho dos fiéis.

No link, algumas fotos deste período:

https://plus.google.com/photos/115993526779829421610/albums/6077911147135339713

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