Direita, volver!

Uma das maiores conquistas do modelo eclesial metodista brasileiro é a democracia existente pelo sistema conciliar. Esta escolha de modelo de governança da igreja distribui o peso das decisões não só na mão da hierarquia clériga, bispos e bispa, mas também nos Concílios (Geral, Regional, Distrital e Local). Este sistema politiza o debate da gestão da igreja, seus rumos e seus planos. Politiza pela própria natureza do sistema. Os concílios, paritários entre clérigos e leigos, são espaços naturais de articulação, de formação, fusão e acordo entre grupos com pensamentos, projetos e crenças eclesiais e teológicas distintas, que no amor à igreja e à missão encontram espaço para discussão e construção do consenso.

Aos que me conhecem e sabem onde me localizo neste extenso espectro ideológico que é a igreja hoje, sabem o preço que se paga por ter opiniões e discussões públicas acerca de temas políticos, polêmicos e difíceis. Mas sabem também, a paixão que nutro por esta comunidade de pessoas que se dispõe, em meio a tantas diferenças, sonhar e caminhar junto.

Eis que existe um claro inimigo a este processo democrático e plural. A hegemonia.

Fazendo uso de um documento público, afinal, somos uma associação, figura de direito privado nacional, e como membro desta associação tenho direito ao acesso dos documentos por ela produzido, gostaria de traçar uma crítica ao modo como esta associação tem sido gerida nos últimos tempos.

Eis as linhas encontradas no caderno do Concílio Regional da Igreja Metodista na 5ª Região, assinado pelo bispo que essa região preside:

“Como todos sabem, a FATEO é a nossa Faculdade de Teologia, situada em São Bernardo do Campo, criada com o propósito prioritário de formar pastores e pastoras para nossas Igrejas locais em todo o Brasil. Historicamente ela também enfrenta mudanças em sua teologia, sendo que em alguns momentos se torna protagonista de algum movimento teológico e em outros se torna antagonista de outros movimentos. No entanto sempre procurou ser fiel às orientações doutrinarias e teológicas da Igreja por meio do Colégio Episcopal, que é o órgão responsável por ela. Ela já transitou por uma linha teológica mais conservadora, outro momento por uma teologia mais liberal, progressista, academicista, já focou bastante e ainda sustenta alguns eixos da Teologia da Libertação e latino-americana. Como alguns aspectos desta teologia se inspiraram num socialismo ideológico e partidário, vem perdendo forças devido à falência e fracasso das ideologias de esquerda, que cada dia se mostram autoritárias e tão corruptas quanto às de direita. Só não se firmou ainda em um eixo mais evangelical e carismático, mas já houve algumas experiências de alguns no espaço da FATEO. O fato que quero destacar é que a Igreja precisa hoje tanto de teólogos/as consagrados/as e frutíferos/as como de pastores/as e missionários/as consagrados/as e frutíferos/as para nossas Igrejas locais. Nossa FATEO tem procurado equilibrar bem estas duas realidades para servir a Igreja Metodista em especial. Não sem ajustes necessários na caminhada, bem como até substituições de quadros de professores. Não precisamos de vocacionados academicamente perfeitos, com alto nível de aprovação, mas sim um coração pastoral, missionário e discipulador.”

A autonomia universitária é um princípio tão importante da educação que foi até mesmo positivado em nossa Constituição Federal no seu Art. 207. Mas parece que a democracia e o livre pensamento acadêmico não agradam a todos. Não bastasse a arbitrariedade e os abusos cometidos pelo Colégio Episcopal nas recentes demissões ocorridas na Faculdade de Teologia da Igreja Metodista (São Bernardo), agora temos essa bela explicação do que se busca para o futuro desta instituição.

Limito-me à crítica do último trecho retirado do Relatório Episcopal. Apesar de muitas considerações poderem ser feitas à pobre análise de conjuntura que busca atacar com má fé intelectual a Teologia da Libertação, mostrando desconhecimento tanto desta como de leitura política. “Não precisamos de vocacionados academicamente perfeitos.”, é a frase trazida. Ora, que se fechem as faculdades e universidades. Não há nada para aprender nelas mesmo.

O discurso de oposição à educação é, antes de tudo, anti-metodista. O movimento que se fortaleceu na lógica de abre-se uma igreja junto como uma escola, para que o povo possa se libertar social e espiritualmente, vai cada dia mais perdendo sua identidade. Mas a mensagem é tão clara quanto a exposição episcopal acima.

Tem-se medo da educação. Tem-se medo da divergência. Tem-se medo da contestação. Tem-se medo das minorias.

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Afinal, democracia não combina com hegemonia. Direita, volver.

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