Prédica: Utopia

Prédica realizada no dia 13 de Fevereiro de 2016, no Memorial da Resistência de São Paulo

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Textos Bíblicos:

Deuteronômio 26.5-9, Hebreus 11.32-12.2 e o Evangelho segundo S. Lucas 4:1-13

“Neste caso, caro Rafael”, disse eu, “Peço-vos com insistência que nos conteis muito mais coisas sobre essa ilha. Não procureis ser breve- há tempo de sobra para uma minuciosa descrição de tudo o que diz respeito à sua terra, seus rios e cidades, seu povo, costumes, instituições e leis – tudo aquilo que, em suma, pensais que gostaríamos de saber-, ou seja, tudo que ainda desconhecemos”

Há exatos 500 anos, em 1516, o Chanceler do Reino de Henrique IIX, e mais tarde Santo, Thomas More, publicava um livro com um título que trazia um neologismo, uma palavra nova: Utopia. Na estória, o Jovem Rafael Hitlodeu, homem de muitas viagens, conta ao narrador do livro as histórias de uma república “perfeita”, uma Ilha que havia visitado e que o havia fascinado, a Ilha de Utopia.

A ideia de uma sociedade perfeita, o sonho da igualdade total e da fraternidade humana, motivou ao longo de toda a história mulheres e homens na luta contra a opressão e à desigualdade. Onde quer que houvesse uma comunidade humana, um ajuntamento de pessoas, tenho certeza que ali haveria um pensador, um poeta, um artista, um ativista, que sonhava com uma vida mais fraterna.

Ao olharmos para os textos bíblicos percebemos que a inspiração de tais visões não vem de rebeldias injustificadas ou arcadismos desconectados da realidade, é a mais pura inspiração divina. Talvez, eu acho seja a memoria coletiva desta humanidade, do tempo em que ainda estava no Jardim do Éden, e ali cultivava e colhia, cuidava e compartilhava, sem a desigualdade que hoje envergonha os olhos.

O povo hebreu, de forma especial, sempre caminhou com um Deus que mantinha viva esta perspectiva utópica. Como vemos no texto de Deuteronômio, era a força para passar pela libertação do cativeiro egípcio, para caminhar pelo deserto por 40 anos, e mais tarde aguentar o exílio babilônico, sempre projetando em seu imaginário coletivo um lugar, uma terra que mana leite e mel.

Mas a vida dos sonhadores não é fácil. E este lugar em que nós estamos hoje nos lembra disso. As garras dos reinos deste mundo são impiedosas contra aquelas e aqueles que ousam pensar em outro mundo. Marcam na pele aqueles que não se conformam com as injustiças desta terra, ao lado dos mártires inocentes mortos pelo Faraó, dos pequenos mortos por Herodes, estão os nomes de Heleny, de Herzog, de Celso e Fernando, de Anivaldo, Tito, Honestino. Mas também de Verônica, Claudia, Amarildo, as vítimas dos sistemas de morte, aqueles que criam “palácios, barracos”.

Mas os textos bíblicos, entretanto, nos mostram que é a ação destas pessoas que move a história. Deus se atentou ao trabalho e a miséria do povo hebreu, foi a fé que permitiu a vitória de reinos, a prática da justiça, o alcance das promessa.  Esta é a nuvem de testemunha que envolve o povo de fé, os santos e santas que hoje sussurram aos nossos ouvidos palavras de encorajamento e inspiram nossas utopias através do seu testemunho.

Aquele que foi chamado pelo Pai para anunciar a chegada do Reino dos céus sabia deste desafio, e partiu para um tempo de preparação no deserto. Ali foi tentando, porque o poder de lidar com sonhos e utopias é perigoso, e requer responsabilidade. Jesus trazia em si a personificação da esperança de um povo, mas um povo que também desejava um Rei guerreiro, um libertador armado. A proposta da tentação para Jesus era clara, tu podes ser o rei, mas de um reino deste mundo, um rei de grande poder e de riquezas.

Mas o Cristo deixa claro que esta não é a sua proposta. A o Reino que ele anuncia é a utopia definitiva. Eis o desafio de ontem e de hoje, como seguir a proposta radical deste Reino, sem negocia-lo com as tentações de cada dia

Como nos relembra Thomas more há meio milênio: “E grande parte de Seus ensinamentos (falando de Jesus) está mais em desacordo com as convenções do mundo de hoje do que qualquer coisa que eu tenha sugerido, a menos que se levem em conta as doutrinas modificadas pelos pregadores hábeis e astutos – os quais, sem dúvida, resolveram seguir os mesmos conselhos que há pouco me aconselhastes! – “Jamais conseguiremos harmonizar o comportamento humano com a ética cristã”, parecem ter concluído esses sábios, “e então o melhor a fazer é adaptar a ética cristã ao comportamento humano”, como se aquela fosse uma vara de medir feita de chumbo.”

Enquanto somos desafiados a cooperar no Reino hoje, aguardando e lutando pela eterna páscoa que há de vir, quando passamos pelos desertos da tentação, quando estamos sob a garra dos inimigos, não devemos nos esquecer e nem negociar o Reino de Deus.

Eu olho para a nossa igreja hoje e ouso sonhar. Sonho como aquele povo que sonhava com leite e mel quando tudo que via era deserto e tempestades de areia.

Sonho com o dia em que nossos lideres pararão de negociar os valores do Reino de Deus. Sonho com o dia em que teremos um colégio episcopal majoritariamente feminino. Sonho com o dia em que crianças participarão dos sacramentos e das celebrações sem qualquer barreira. Sonho com o dia em que toda forma de amor será reconhecida como sagrada. Sonho com o dia em que travestis e transexuais poderão passar pelas portas de nossas comunidades sem medo de não serem aceitas. Sonho com o dia em que o racismo será apenas uma lembrança do passado, mas nunca esquecida para que nunca volte a acontecer. Sonho com essa comunidade onde todas e todos são bem vindos.

A palavra utopia significa, o não “u”, lugar “topos”. Não-lugar. Com certeza este sonho que compartilhei com vocês ainda é um não lugar. Mas o Reino de Deus também ainda não é. Como disse certa vez Galeano, citando Fernando Birri “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

 

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