Ofensiva Israelense em Gaza, para o Expositor Cristão

Expositor Cristão

Todos/as nós fomos sensibilizados/as nos últimos dias com as imagens e os números alarmantes da recente ofensiva militar israelense ao território palestino de Gaza. As imagens dos bombardeios e das vítimas assustaram a todos, sendo veiculadas principalmente nas redes sociais. Os números também surpreendem, tendo em vista que os dados oficiais, até o momento, contabilizam mais de 70% das vítimas como civis e um terço de crianças e adolescentes.

A situação do conflito não é nova, mas alguns pontos devem ser observados para entender tamanha escalada de violência. Com a criação do Estado de Israel, em 1948 e com as guerras que se seguiram, o plano original de criação de dois estados na região (Israel e Palestina) não foi cumprido. A maior parte população palestina, foi deslocada para dois territórios que até hoje seguem sob o controle do exército e do governo israelense, trata-se da Cisjordânia e da faixa de Gaza. Esta ocupação já dura mais de 45 anos, sem permitir o desenvolvimento de um Estado Palestino e de uma perspectiva de paz duradoura na região. 

A situação de Gaza é ainda mais complicada. Com a densidade demográfica mais alta do mundo, cerca de 4.700 habitantes por quilometro quadrado, a região de Gaza conta 1.5 milhão de refugiados, de uma realidade de 1.7 milhão de habitantes. O bloqueio imposto pelo Exército Israelense faz com que a mobilidade seja muito limitada, e toda entrada de alimentos, material de construção e de pessoas, seja controlada por Israel.

Nestes contextos, como temos o exemplo das nossas favelas e periferias brasileiras, se torna mais favorável o desenvolvimento de grupos radicais e armados que tentam restabelecer uma ordem e organizar uma resistência frente à uma realidade dão dura.

O braço armado do Hamas, partido democraticamente eleito para governar Gaza, faz constante ataques à Israel com misseis de curto alcance e baixo impacto. Devido à grande diferença de poder bélico, Israel responde com grandes bombardeios que não fazem diferenciação de alvos civis e militares, como evidenciado na recente ofensiva.

A cada um e cada uma de nós, como cristãos e cristãs distantes geograficamente do conflito, cabem algumas responsabilidades evangélicas. A primeira é de orar pela resolução do conflito, para a manifestação graciosa do Deus da vida, pelo derramar do Espírito de Paz, e por todos aqueles e aquelas que lutam pela justa paz na região. E devemos dar mais um passo, reconhecer a necessidade de tomarmos ações praticas para uma solução final deste conflito. Muitas vezes, influenciados por uma teologia antievangélica e irresponsável, que coloca o Estado Moderno de Israel como o herdeiro do Israel Bíblico e detentor de todas as promessas do Antigo Testamento, contribuímos para a manutenção de um sistema de opressão para os nossos irmãos e irmãs palestinos. Em Cristo, temos a revelação da Boa-Nova, Deus não tem preferidos, somos todos filhos e filhas dEle, sem acepção.

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Relatório – IAMSCU Conference, Hiroshima, Japão

Participei da Conferência da Associação Internacional de Escolas e Universidades Metodistas, durante os dias 24-28 de Maio, em Hiroshima, Japão, como estudante e como jovem metodista.

A educação, assim entendo, encontra-se nos fundamentos do entendimento missionário metodistas, e se desenvolveu, ao longo do século, como um potente instrumento de transformação da sociedade à luz dos princípios cristãos e do Reino de Deus.

Em Hiroshima, sob o tema de “Paz, Reconciliação e Direitos Humanos”, pudemos aprender e compartilhar as iniciativas que as instituições e os estudantes de todo o mundo vêm realizando para tratar deste importante tema. Aprendemos muito da instituição que nos recebeu: a Universidade e Colégio Jogakuin. A escola onde celebramos a abertura da conferência foi totalmente destruída no ataque atômico de 6 de Agosto de 1948, quando a maioria quase absoluta dos professores e alunos morreu instantemente ou em decorrência dos efeitos da bomba.

A marca da paz e reconciliação, tradicionais do ensino cristão, floresceu e se desenvolveram fortemente durante o tempo de reconstrução da escola, influenciando, inclusive, toda a cidade. Assim, a história de Hiroshima se somou às diversas vozes e experiências compartilhadas pelas instituições metodistas espalhadas por todo o mundo, que cumprem a missão da proclamação do evangelho de forma prática.

Particularmente, participei do encontro de estudantes que acontecia simultaneamente à assembleia. Éramos um grupo de 70 estudantes, da América latina, Estados Unidos, África e Ásia, de diferentes colégios e universidades. Juntos pudémos compartilhar experiências e realidades de nossos contextos locais e nacionais, além de formarmos um forte laço de amizade que nos permitiu experimentar juntos a revisita que fizemos à triste história desta cidade. Formamos uma rede de contatos que levaremos para toda a vida.

Por mais que nenhum de nós tenha experimentado o horror da bomba, ou até mesmo o contexto das grandes guerras, a realidade à que fomos apresentados durante a Conferência, nós vez refletir sobre a série de pequenos conflitos e situações de degradação da vida humana que somos apresentados à cada dia. Os relatos dos sobreviventes, de certa forma, dialogam com sentimentos profundos e comuns à todos nós enquanto seres humanos, irmãos e irmãs em Cristo.

De forma especial, a delegação brasileira teve a honra de contar com a presença do Professor Almir Maia, que foi homenageado com a mais alta honra da IAMSCU. Nele, toda a educação metodista brasileira foi reconhecida, pela sua excelência e pelo seu desempenho ativo na defesa dos direitos humanos. Em tempos de dificuldade nas nossas instituições, temos que nos lembrar do testemunho da escola metodista em Hiroshima, nem a bomba atômica foi capaz de parar com a missão da educação metodista naquele lugar. E nós? Não podemos nos deixar abater pelas nossas crises.

O grande desafio apresentado pela Conferência foi uma reflexão sobre como temos vivido a dimensão pacífica e justa da nossa fé em nossas instituições. Steve Leeper nos apresentou o grande desafio de enxergar a promessa de paz e justiça do Reino de Deus não apenas como algo utópico é distante, mas como uma realidade que deve ser buscada, uma postura ativa é requisitada de nós. Deste modo, somos desafiados e desafiadas a dar um passo nesta direção. Debruçarmo-nos sobre os problemas sócio-políticos de nossas comunidades, assim como aqueles de escala globais, e, à luz da Palavra de Deus, buscarmos soluções pacíficas e justas, de forma criativa, na construção de uma sociedade mais justa, e mais humana.

IAMSCU CONFERENCE STUDENTS

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Sede de Justiça em meio ao deserto

 

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;”

Evangelho segundo S. Mateus 5:6

 

Há pouco mais de um ano quando eu servi nos Territórios Ocupados do Estado Palestino, em um programa do Conselho Mundial de Igrejas, eu acompanhei um grupo de comunidades na região do Vale do Jordão, na Cisjordânia. Trata-se de uma região desértica, com alguns poços de água que abastecem e permitem que comunidades palestinas ainda se mantenham em seus territórios apesar da ocupação militar e civil por parte do Estado Israelense. Sempre que íamos a essa região, nos preparávamos. A água ali era escassa, e as temperaturas, altíssimas. Carregávamos garrafas de água e gelo e deixamos guardadas num recipiente no porta-malas de nosso carro. Mas esse dia foi diferente.

Saímos para uma visita rápida à cidade de Nablus, na certeza de voltar logo para nossa casa. Entretanto recebemos uma chamada de uma vila no Vale do Jordão. Era uma emergência. A comunidade estava prestes a ter suas tendas demolidas para a realização de um exercício militar israelense. Sim, um exercício militar do país que ocupa aquelas terras. Corremos para lá. Atravessamos cerca de 2 km na areia batida, tanques de guerra e acampamentos militares dos dois lados. Enfim chegamos à pequena vila. E ali permanecemos por 5 horas, fazendo contato com as mais diversas organizações internacionais, documentando a situação e chorando com aqueles que choravam. Com um “porém”, não havia água, e as temperaturas alcançavam os 40 graus. Pela primeira vez eu tive a sensação real da sede. Sede física, mas também sede de justiça.

Estamos vivendo o período da quaresma, um período de preparação, reflexão. Um período de Deserto. Um período de incertezas, mas de esperança. Compartilhamos este texto do Evangelho segundo Mateus, ontem na celebração vespertina na igreja. Era o momento da palavra de esperança. Sede e deserto. São duas palavras que combinam, que incomodam, que desafiam. No sermão da montanha o Senhor é claro: Bem aventurados aqueles que têm sede de justiça. Sede. Um sentimento instintivo, uma vontade forte, algo que não é controlável, algo que nasce dentro de nós.

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Na celebração de ontem, refletimos sobre os 50 anos do golpe militar, o papel da mocidade, no passado e hoje. E nos perguntamos: “O que é que nós temos a ver com isso hoje?”. Há exatos 41 anos foi assassinado nos porões da ditadura, o jovem Alexandre Vannucchi. O militante, cristão, estudante da faculdade de Geologia da Universidade de São Paulo, foi preso e torturado pelo regime militar. Seu nome ecoa até hoje como imagem da resistência pela democracia levada a frente por jovens em todo o país. Com apenas 22 anos. Um jovem.  Somam-se nesta lista, Heleny Guariba (professora da escola dominical e jovem metodista da Central de São Paulo), os irmãos Celso Cardoso e Fernando Cardoso (jovens metodistas), e uma lista imensa de jovens, homens e mulheres, desconhecidos e conhecidos, encontrados ou não, que deram suas vidas por um ideal de justiça.

O que motivava essas jovens? Em especial estes jovens militantes cristãos que trazemos os nomes hoje? Era uma sede incontrolável, em meio a um deserto de um sistema político opressor e violento. Uma sede justiça que não podia ser substituída por outro líquido, senão aquele que jorra do trono, a vida plena, a vida abundante.

Hoje nós ultrapassamos esse deserto, mas muitos outros ainda estão presentes na realidade brasileira, no nosso mundo. O deserto do Vale do Jordão continua gritando. O deserto de Pinheirinho. O deserto das nossas favelas. O deserto de vidas sem sentido guiadas pelo consumismo e pela imagem. O deserto de uma sociedade que se afastou dos ideais de paz, amor e justiça do Reino de Deus.

Você tem Sede de que? Você tem fome de que?

Em meio ao deserto Deus nos chama a ter sede de Justiça. É um convite radical. Mas existe uma promessa. Seremos saciados. Hoje, nós nos somamos a luta e a memória daqueles que deram suas vidas por terem sede de Justiça. Aqueles que nos acompanham com seu testemunho na nuvem de testemunhas da nossa história de fé. Que nessa caminhada quaresmal possamos ter sede de Justiça!

Alexandre Vannucchi, presente.

Heleny Guariba, presente.

Celso Cardoso, presente.

Fernando Cardoso, presente.

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Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (Hemisfério Norte)

Texto publicado em 17 de Janeiro de 2013, pelo Concílio Mundial Metodista, na ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (Hemisfério Norte) original em: http://worldmethodistcouncil.org/methodists-celebrate-week-of-prayer-for-christian-unity

“Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste.” Evangelho segundo João 17: 21

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Em um domingo pela manhã, no meu caminho para a igreja, eu resolvi contar quantas igrejas existem entre minha casa e a comunidade metodista que eu frequento com minha família. Eu contei mais de 10 locais de culto cristão; grandes templos católicos, uma pequena igreja ortodoxa russa, uma antiga igreja evangélica, uma nova denominação pentecostal da qual eu nunca havia ouvido falar, uma capela anglicana japonesa e, a um quarteirão da minha igreja, um igreja congregacional com seus membros vestidos em seus melhores ternos. Existem diferentes tradições, músicas e liturgias nestas igrejas, mas eu tenho a certeza de uma coisa: todos nós temos em nossas bíblias a passagem que diz: “Para que todos sejam um.”.

Em Outubro de 2013 eu tive a oportunidade de servir como steward (ajudante) na 10ª Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas. O CMI é o maior corpo ecumênico cristão, congregando 349 igrejas-membro de mais de 140 países, de diferenças tradições religiosas. Sob o tema de “Deus da Vida, conduze-nos à Justiça e à Paz”, cristãos de todo o mundo foram em peregrinação para a cidade de Busan, República da Coreia, para momentos de culto, celebração e desafios. No movimento ecumênico nós aprendemos que aquilo que nos une é muito mais forte do que aquilo que nos separa e é o próprio Cristo que, através das águas do santo batismo, nos une todos como um só corpo sob a sua condução.

Como steward eu passei 20 dias trabalhando com mais 130 jovens que vieram de diferentes contextos e culturais e sociais. Eu pude ouvir as dificuldades da Igreja cristã no Paquistão, as histórias de resistência dos meus companheiros sírios ortodoxos, assim como dos meus amigos coptas egípcios. Eu aprendi canções de diferentes continentes e orações de diferentes tradições. Eu tive a honra de servir com o time de liturgia e música, preparando e participando das orações matutinas, ensaiando a música, arrumando o altar e ajudando a organizar o Salão de culto. Como na experiência de Pentecostes, eu fui maravilhado participando de uma oração com mais de 5.000 pessoas que representavam quase toda a Cristandade. Eu podia ouvir as palavras do Evangelho de João ressoando em minha cabeça.

Mas ao mesmo tempo eu me perguntava: que tipo de unidade Deus quer de nós? Eu tive que voltar ao texto bíblico. Deus propõe uma unidade que é baseada no conceito da trindade e focada na missão. “Um como nós”, ao mesmo tempo em que Cristo, o Espírito Santo e o Pai são o mesmo, eles são diferentes. Eles possuem diferentes papeis na história da salvação. Mas, essa unidade aponta para a missão, para o Reino de Deus: “para que o mundo creia”. Unidade, na diversidade dos nossos dons, ao serviço do povo.

Em um de nossos encontros confessionais, onde a família Wesleyana-Metodista se reunia sob a direção do Concílio Mundial Metodista, eu olhei ao meu redor e percebi a grande diversidade que existe mesmo entre os irmãos e irmãs metodistas. Então eu entendi, nós não somos chamados para sermos iguais, nós somos chamados à realizar a missão de Deus, de acordo com as nossas culturas, contextos, dons e pela necessidade das pessoas que estão ao nosso redor. Algumas vezes nós nos encontramos em meio à disputas e forte discussão com outros, ou entre nós, por  causa das nossas diferentes tradições, diferentes entendimentos das escrituras ou diferentes expressões de fé e espiritualidade. Mas Deus nos desafia a sermos um, a nos engajarmos em conversas com aqueles que parecem tão diferentes de nós. Nós devemos nos perguntar: como nós podemos trabalhar juntos na missão em direção ao Reino?

Hoje, quando vou em direção à minha igreja nos Domingos, eu olho para todas essas comunidades cristãs de fé e me pergunto. Como podemos trabalhar juntos? Como podemos servir juntos à comunidade em que estamos inseridos? Eu trago comigo as histórias e o testemunho dos jovens cristãos que eu conheci em Busan. E eu te desafio: se permita perceber o trabalho de Deus nas diferentes denominações, desde as nossas diferentes igrejas de tradição wesleyana-metodista até aquelas que são mais diferentes de nós. Oremos juntos, trabalhemos juntos: Deus da Vida, conduze-nos à Justiça e à Paz.

“Em terceiro lugar, resolvamos não nutrir nenhum pensamento menos caridoso e nenhum espírito inamistoso uns para com os outros. Deitemos o machado à raiz da árvore; examinemos tudo o que nasce em nosso coração, e não admitamos qualquer atitude que seja contrária ao terno afeto.” João Wesley, Carta a um Católico Romano

Para mais informações sobreo o CMI: http://www.oikoumene.org/en

Para mais informações sobre o programa de stewards e como se inscrever: http://www.oikoumene.org/en/what-we-do/youth/stewards

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Um conto de Natal palestino

A estrutura narrativa e localidades da história do Natal segundo a Bíblia combinadas a histórias e fatos contemporâneos da região de Palestina/Israel

 por Pedro Ferraracio Charbel

 

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Igreja da Natividade, Belém – Palestina 2012.

 

Joaquim e Ana, pais de Maria, viviam em Nazaré, na Palestina. Suas famílias estavam lá há gerações, mas em 1948, com a criação do Estado de Israel, muitos dos seus amigos e parentes que moravam na região foram expulsos, alguns mortos, durante um processo deliberado e violento de limpeza étnica. Na época, mais da metade da população palestina foi evacuada da região que veio a ser chamada de Israel: 531 vilas foram destruídas (fonte). Esse processo ficou conhecido como Nakba – “catástrofe” em árabe -, e hoje há em torno de 5 milhões de Palestinos refugiados (fonte), esperando o dia em que voltarão para suas casas.

 

Os pais de Maria permaneceram em Nazaré e se tornaram, assim como ela ao nascer, cidadãos israelenses. Isso não significava que tivessem os mesmos direitos e oportunidades dos cidadãos judeus de Israel. A alocação de verba do governo no bairro em que viviam era prova disso: os palestinos são 20% da população de Israel e somente 6,25% dos recursos públicos são destinados a eles (fonte). Na escola frequentada por Maria, só para palestinos – já que o sistema educacional é dividido – o investimento por aluno era seis vezes menor do que em uma escola judaica (fonte).

 

Quando soube que estava grávida, manteve o fato em segredo até a ocasião da visita a sua prima Isabel, a qual também esperava um filho. Ela e seu marido Zacarias moravam em Al Araqib, mais ao Sul do país. Trata-se de uma das 60 vilas não reconhecidas por Israel: lá não havia nenhum serviço público. Quando Maria chegou, os primos, já idosos, reerguiam as casas que haviam sido demolidas por Israel pela 62ª vez.

 

De volta a Nazaré, o nascimento do filho se aproximava, quando chegou a notícia sobre o processo judicial de seu marido José. Ele nascera em Belém, cidade localizada na região da Cisjordânia, parte da Palestina ocupada por Israel desde 1967. Desde que se casaram, vinham enfrentando muitas dificuldades para viverem juntos em decorrência de uma lei de 2003 que proíbe palestinos de Gaza e Cisjordânia, como José, de viverem com suas esposas em Israel.

 

Os palestinos da Cisjordânia são separados de Israel por uma extenso muro, em alguns trechos em forma de cerca, considerado ilegal pela Corte Internacional de Justiça pois anexa blocos de assentamentos ilegais e entrecorta terras palestinas. Todos os dias, milhares de palestinos como José, chegam durante a madrugada nos postos de controle e se agrupam entre grades e soldados para cruzarem para o outro lado (fotos). São palestinos com permissões de trabalho em Israel, em sua maioria em sub-empregos. No caso de José, o trabalho era em uma carpintaria israelense.

 

Desde que se casou com Maria, vinha batalhando judicialmente pelo direito de morarem juntos em Nazaré (vídeo de caso real). Há poucas semanas do nascimento de seu filho, a ordem de deportação chegou: para cumprir a determinação do Estado de Israel, José precisava ir à Belém. Temendo que fossem ficar separados e diante do eminente nascimento do filho, o casal decide fazer a jornada juntos.

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Belém – Palestina 2012.

 

Morar em Belém não seria fácil. Os acordos de Oslo dividiram a Cisjordânia ocupada entre a administração da Autoridade Nacional Palestina e Israel. Sob o controle palestino relativo resta menos de 40% de território descontínuo, um verdadeiro arquipélago, no qual 90% dos palestinos se concentram. Nos 60% restantes, assentamentos judeus e bases militares israelenses ocupam 70% da área, o que, somado a outras restrições, faz com que apenas 1% esteja sujeito à construção por palestinos com a devida autorização (fonte). 

 

José e Maria se hospedaram na casa de um amigo nos arredores da cidade. Eram humildes e não se importariam de dormir num estábulo se fosse necessário. Sorte que esse não era o caso pois infelizmente o estábulo da casa em que estavam fora demolido poucos dias antes – assim como outros 170 somente em 2010.  Nesse mesmo ano, 222 casas palestinas foram destruídas por Israel (fonte), o que, somado a restrições no acesso a água e outros recursos básicos vem contribuído para o continuo deslocamento forçado de palestinos.

 

Maria entrou em trabalho de parto poucas horas depois de chegarem à casa. Tão logo as contrações se intensificaram, José tomou o carro do amigo emprestado e dirigiram rumo ao hospital. Locomover-se na Cisjordânia, no entanto, nunca é simples.  O movimento é restringido por blocos de assentamentos judeus, o imenso muro que entrecorta e anexa territórios,  estradas exclusivas para judeus, e uma série de barreiras e postos-de-controle, mesmo entre comunidades palestinas – ao todo são 513  impedimentos localizados no interior da Cisjordânia (fonte).

 

José contava o tempo entre as contrações de Maria quando avistou o controle militar adiante na estrada. O soldado israelense sinalizou que encostasse o carro para revista. José explicou a situação da esposa para que agilizassem a passagem, mas os soldados não se incomodaram em prosseguir a vistoria no veículo. Ao insistir em apressá-los, José foi posto para fora do carro e levado para a guarita próxima. Voltou a tempo de ajudar a esposa, prestes a dar a luz, a se deitar no chão ao lado do carro.

 

Jesus nasceu ali, no asfalto, a alguns metros do controle militar israelense.

 

Um grupo de pastores protestava nos campos próximos a cidade de Beit Sahour contra a expansão dos assentamentos na região quando ouviram sobre o caso. Partiram rumo ao hospital, no qual o casal e o recém nascido acabava de chegar. Três importantes líderes palestinos, refugiados na Jordânia desde 1967, tentaram cruzar a fronteira para visitar o menino. Foram, no entanto, impedidos pelo controle de fronteira israelense.

 

O caso de Jesus ficou famoso, mas de maneira semelhante, entre 2000 e 2007, 10% das grávidas palestinas rumo a hospitais foram atrasadas e 69 bebês acabaram nascendo em postos-de-controle nos Territórios Palestinos Ocupados (fonte e vídeo). O filho do casal que vinha batalhando pelo direito de viverem juntos em Nazaré, nascido num posto de controle, tornou-se mais um símbolo da luta palestina e ficou desde então conhecido como Jesus de Nazaré. Levaria consigo o nome da cidade que lhe fora negada, como tantos outros palestinos refugiados e deslocados internos. Morreria como mártir, sem nunca se esquecer. 

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Muro da Segregação, Belém – Palestina 2012.

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Mensagem de Natal da Prefeita de Belém, Palestina – Vera Baboun

Desde uma pequena gruta em Belém a mensagem de amor, esperança, justiça e paz, se espalhou por todo o mundo.

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Vista panorâmica da Cidade Palestina de Belém, ao fundo, Colinas da Jordânia.

Hoje, a nossa pequena vila se transformou em uma vila menor ainda, devido à expansão dos assentamentos israelenses, mas a mensagem de Jesus Cristo continua em nossos corações, superando com esperança a aflição de décadas vividas sob ocupação externa e sendo privados de nossos direitos.

Em Belém, apesar das dificuldades, nós temos a obrigação de olhar para o futuro com esperança. Nós celebramos, pois grande parte de nossa “Cidade Antiga” se transformou Patrimônio da Humanidade pela UNESCO e o restauro da Igreja da Natividade, começou sob o patrocínio do Presidente Mahmoud Abbas.

Nosso setor privado continua a investir apesar dos obstáculos colocados pela ocupação, e nosso povo continua a protestar pacificamente contra as injustiças impostas sobre eles, enquanto a comunidade internacional apenas observa simpaticamente.

Uma vez por ano, a cidade de Belém entra em milhões de casas pelo mundo todo através da figura que nasceu na nossa pequena gruta. Mais de 2000 anos se passaram desde este momento, e o povo de Belém continua a proteger e cuidar desses lugares onde a Sagrada Família deixou seu legado.

Como o Papa João Paulo II disse-nos em sua visita à nossa cidade me 2000, “Os pastores de Belém foram os seus antecessores, seus antepassados”.

Mas Belém não é um museu, nem apenas uma gruta. É uma experiência viva de luta diária pela existência, por uma paz justa e duradoura, e este é o Belém que nós também compartilhamos com o mundo. Uma Belém que é modelo natural de coexistência entre Cristãos e Muçulmanos, um exemplo para o resto da região.

Uma Belém que é casa de milhares de refugiados que tem esperado pelo cumprimento dos seus direitos desde 1948. Uma Belém onde religiosas e religiosos cristãos oram pela liberdade de todo o povo Palestino e pela preservação de suas casas e sustento. Belém e seu povo são um chamado vivo pela liberdade e pela dignidade.

Da Praça da Natividade, nós agradecemos os líderes mundiais pela atenção que eles têm dado ao nosso país, a Palestina, e a nossa cidade de Belém em particular. Mas é chegado um tempo de tomar ações concretas a fim de preservar as esperanças por uma paz justa na região. Ao continuarmos as restaurações de nossa Cidade Antiga, nós continuamos um chamado pela restauração de nossas terras e o retorno do nosso povo.

Nós oramos para que este Natal ilumine os corações daqueles que tem o poder para acabar com décadas de injustiças; e de garantir um estabelecimento seguro de um livre e soberano Estado Palestino nas fronteiras de 1967, com Jerusalém Oriental como sua capital, nossa cidade irmã que foi completamente separada de Belém pela primeira vez em 2000 anos de Cristianismo, por culpa do empreendimento de colonização israelense.

Todo Natal nós declaramos “Gloria a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados”

Que esse Natal nos dê, e a todos os nossos irmãos e irmãs por todo o mundo, a força necessária para celebrar o Natal de 2014 tendo alcançado o cumprimento da justiça e da paz para todas as pessoas do mundo, incluindo as daqui da Palestina.

AP Photo/Majdi Mohammed

 Vera Baboun é a prefeita da Municipalidade de Belém, Estado da Palestina.

Para o texto original em Inglês: http://www.maannews.net/eng/ViewDetails.aspx?ID=652272

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Tu vens, Tu vens, eu já escuto os teus sinais

Eu sempre gostei muito do período das festas. As ruas iluminadas, o natal com neve falsa na Rua Normandia, a Árvore do Ibirapuera e o típico passei de paulistano na Paulista. Também o sentimento que fica no ar, as festas, os encontros, os amigos secretos, as confraternizações e os jantares. Porém, de alguns anos para trás o mês de Dezembro se revestiu de um sentimento especial.

Na tradição Cristã, rememoramos um período de quatro semanas, quatro domingos até o Natal. O Advento é um tempo de espera. Para quem está acostumado com uma quaresma de 47 dias, o advento até parece pouco tempo. Mas ele é revestido de um sentimento que se torna mais especial a cada ano que celebramos. Um sentimento do já e do ainda não.

Todos nós sabemos que no dia 25 celebraremos a natividade do Senhor, o nascimento do menino-Deus na pobre estrebaria da cidade palestina de Belém. Porque então esperar, por que gastar tempo refletindo, se já sabemos o que vai acontecer. Acontece que a história bíblica é feita de caminhadas, de percursos, de começo, meio e utopia. E essa é uma das maiores lições para nós, somos povo em caminhada.

A história da encarnação de Deus na humanidade é uma das mais belas e complexas experiências da nossa fé. Um Deus Criador que se torna como uma de suas criaturas. Esperamos, lembrando do anjo que anunciou à Maria, cantamos com ela. Esperamos, lembrando do anjo que anunciou à José, nos colocamos em seu lugar. Esperamos, caminhando rumo à Belém, atravessando de Norte ao Sul da Palestina. Esperamos o nascimento do menino-Deus.

Mas a história da encarnação de Deus é também a nossa história, é a história do seu povo, que caminha em direção ao Reino. Esperamos, olhando a nossa volta e nos compadecendo daqueles que sofrem. Esperamos, denunciando os pecados de uma sociedade injusta e lutando por um mundo melhor. Esperamos, anunciando a chegada do Reino e o ano aceitável do Senhor. Esperamos o cumprimento Reino de Deus.

É tempo de Advento, sabemos que Ele vem. Mais do que um tempo de alegria passageira e de luzes que voltarão para os armários em Janeiro. É tempo da verdadeira e real Esperança.

É tempo de reflexão e ação.

Já podemos escutar os seus sinais.

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